Penso que terá sido no início da Primavera, num dia provavelmente atípico para o habitual clima da época, que o P., de 10 anos de idade, entrou na aula de Aikido falando do tempo que fazia lá fora. Trocámos algumas impressões e ele explicou-me com um ar muito sério a origem do fenómeno: “São as alterções climáticas. A poluição está a provocar efeito de estufa e o tempo começa a ficar todo alterado”. Nunca mais me esqueci desta conversa rápida e muito simples com o P.. Pergunto a mim mesmo, que não consigo lembrar-me de como pensava aos 10 anos, como encarará ele o que lhe ensinaram na escola acerca de alterações climáticas? Lembro-me, isso sim, de folhear um livro dos meus pais, cheio de ilustrações, chamado “O Futuro” e, para mim, o dito futuro não deveria andar muito longe disto:

Uma coisa no entanto me parece pouco difícil de perceber: as crianças de hoje são educadas na perspectiva de uma grande catástrofe e não por temerem a invasão de algum inimigo identificado, como tantas vezes aconteceu ao longo da história, mas por recearem um inimigo que, dizem-lhes, começa a mostrar sinais mas não tem rosto nem se sabe de onde vem. Como num cenário de guerrilha. Na melhor das hipóteses, pensam que ou viverão num mundo sustentável que a humanidade conseguiu salvar ou viverão uma realidade assim:

A imagem acima, é retirada do filme com que abriu a Cimeira de Copenhaga, um verdadeiro tratado de mau gosto e de propaganda pelo medo. Muito resumidamente, no dito filme há uma uma menina que brinca como muitas outras crianças num parque infantil. Subitamente começa a chover e todas correm para casa. O cena seguinte mostra a menina em frente do televisor. Enquanto faz zapping, várias imagens de catástrofes naturais ou de uma criança refugiada que chora vão passando pelo écran. Como som de fundo, ouve-se que tudo isto é causado pela actividade humana e pelo esforço que esta impõe ao planeta. A criança deita-se e o filme muda para um tom sépia. Percebe-se que assistimos ao desenrolar um sonho: a menina acorda e a sua cama está no meio de uma paisagem desertificada. Levanta-se e olha à sua roda. Neste momento, o chão como que ganha vida e começa a abrir brechas. A menina corre enquanto o chão se abre atrás de si. O céu muda de cor, o terreno desértico é invadido por vento e por água de uma forma que sugere um tsunami. A única hipótese de a criança se salvar é agarrar-se ao que resta de uma árvore moribunda e ficar aí pendurada como se fosse uma bandeira até acordar do pesadelo com um grito. Já reconfortada pelo pai, a criança conta o que sonhou. Este, não encontra melhor remédio para sossegar a filha do que levá-la para o computador e ver mais depoimentos de gente famosa que nos diz que, se não mudarmos o nosso comportamento, o mundo como o conhecemos acabará. É então que a menina vai para o terraço de casa com uma câmara de vídeo na mão e se grava a si própria enquanto diz “Please, help the world!”. O filme acaba com mais crianças, de várias origens, fazendo pedidos semelhantes. Enfim, um festival de simbologia muito barata (onde não falta o inevitável peluche que acaba engolido por uma racha no chão) ao serviço de uma demagogia inenarrável.
O que pergunto afinal é se será justo, mesmo que movidos por razões nobres, estarmos a colocar as gerações mais novas perante a perspectiva de acabarem no meio de uma tragédia de proporções monstruosas. Colocar nos ombros dos mais pequenos o peso de uma escolha entre a salvação ou o inferno é efectivamente estar a colocá-los perante a hipótese de esse mesmo inferno poder vir a acontecer. Crescer com a noção de que a vida comporta perigos e de que não se vive numa redoma, está certo; mas duvido que seja saudável crescer com a ideia de que tudo poderá acabar de aqui a pouco tempo quando o nível do mar subir dois centímetros. Tudo isto, quando a ciência não fez ainda prova definitiva da relação entre a actividade humana e o aquecimento global. Mais, está para provar ainda que o dito aquecimento não seja um fenómeno cíclico ou mesmo que venha a desembocar numa tragédia.
Gostaria aqui de fazer um ponto acerca das minhas convicções pessoais sobre o assunto das alterações climáticas. Sou um leigo na matéria e tento manter-me informado com os meios de que disponho. Percebo que há ciência credível do lado de quem diz que as alterações climáticas são provocadas pelo Homem, mas também do lado de quem sustenta o contrário. A minha posição, para já, é a de que enquanto não houver certezas absolutas se jogue pelo seguro, desde que não se ponham em causa direitos de quem não tem nenhuma das eventuais “culpas no cartório” — os povos não desenvolvidos. É partindo desta posição que não posso concordar com a campanha pelo terror que se tem vindo a desenrolar nos últimos anos e que nos coloca, no fundo, à sombra da guilhotina por causa de um crime que poderá vir a acontecer ou não e no qual teremos apenas parte da culpa (e no caso das crianças culpa nenhuma).
Tudo isto é tanto mais grave quanto já vivemos hoje numa sociedade em que somos bombardeados por perigos e sentimentos de culpa. Vivemos com a culpa de fumar ou o perigo de “levar com o fumo dos outros”; o perigo das gorduras e do sal; a culpa das rugas e de uns quilos a mais; o medo de se ser velho (alguns dirão “idoso”) ou a obrigação de se ser jovem. Tentemos portanto ter algum poder de distanciação. Saber que um perigo existe não significa ter que reagir de maneira excessiva, de forma a que possa essa mesma reacção vir a ser causadora de novos problemas.
Deixo aqui algumas referências acessíveis onde se poderá recolher alguma informação sobre o problema das alterações climáticas e que refletem as visões científicas contraditórias sobre este assunto:


















