
Trânsito, Artes-marciais e Meditação
Dezembro 29, 2006É inevitável… é assim, todos os anos, há muitos anos: entre o Natal e o Ano Novo faz-se o balanço de dois ou três dias de acidentes na estrada e preparam-se as pessoas para outro, igual ou mais grave, que inevitavelmente se confirma depois do dia 1. Há muito que se procuram causas, na esperança de encontrar uma cura para o problema; a meu ver, a maior parte das vezes no sítio errado, e por isso falo deste tema aqui, como ponto de partida para outra conversa.
Enquanto teimarmos em atribuir o problema dos acidentes rodoviários a causas como o álcool, o excesso de velocidade ou a falta de qualidade dos exames de condução (para já não falar dos famosos “pontos negros”), estaremos a dar tiros na água; se todas elas podem, dependendo dos casos, ter a sua quota no problema, a verdadeira razão está muito antes, na enorme falta de preparação emocional com que todos nós nos “fazemos à vida”. É um problema das sociedades ocidentais (e das que nos seguem o exemplo) que valorizando (por vezes sobrevalorizando) o desenvolvimento físico e intelectual, pura e simplesmente ignoram toda e qualquer forma de educação emocional (mesmo sabendo, como hoje se sabe, do papel das emoções na tomada de decisões a todos os níveis).
A mera experiência de cada um, é suficiente para perceber como, na estrada, qualquer impulso agressivo, de exibição ou de prova de supermacia perante “o outro”, se sobrepõe às regras mínimas de segurança que qualquer pessoa com uma televisão em casa por certo conhece. Uma semana de viagens Cascais/Lisboa ou Sintra/Lisboa a caminho do trabalho, é suficiente para se constatar o número de vezes em que alguém preferiu colocar os impulsos mais primários acima do bem estar comum (em muitos casos, da própria família). E se, em certos países, uma cultura de civismo e respeito pelo bem estar de todos, ajuda a minorar o problema, tal não é evidentemente o caso português (penso não ser necessário discorrer aqui sobre o assunto).
É então este o meu ponto: a par da educação física e intelectual que a sociedade coloca ao dispor das famílias para a educação dos seus filhos, também a “Educação emocional” deveria fazer parte das actividades escolares (ou extra-escolares desde que coordenados com estas). E aqui entrariam as artes-marcias e/ou meditação, como utensílios tanto para a compreensão do papel de cada um como parte de um todo, como para a aquisição da capacidade de reconhecimento da instabilidade emocional (natural e saudável) de cada indivíduo.
Quando refiro as artes-marciais, faço-o tendo em conta a sua vertente não competitiva, tendo por objectivo o crescimento simultâneo do corpo e mente, a aprendizagem do respeito pelo bem-estar do “outro”, a naturalidade de ganhar ou perder, o saber lidar com a frustração e até com algum desconforto físico (obviamente, dentro dos limites do razoável). Não tenho nada contra a competição nas artes-marciais; muito pelo contrário, penso que poderia ser um factor importante na educação dos mais novos que o desejassem. Infelizmente, (reconheçamos, todos conhecemos um ou mais casos) mais tarde ou mais cedo, uma criança vai deixar de praticar porque o professor só o passaria de cinto se combatesse no “campeonato x”, um qualquer treinador vai aconselhar o seu discípulo a “fazer fita” em dada situação, enfim… estamos de novo na estrada.
A meditação é, de um certo ponto de vista, o exercício mais difícil que cada um de nós pode tentar. O simples facto se querer estar cinco minutos concentrado, por exemplo, na respiração, mostrará essa dificuldade ou até, inicialmente, impossibilidade. É, por outro lado, a maneira mais simples de nos aprecebermos da nossa agitação, de como nos podem “fugir” os pensamentos, de como ficamos desarmados quando tentamos controlar algo que julgávamos dominar e que, afinal, parece indomável: nós próprios. Reconhecido o facto, teremos o terreno ideal para começar a trabalhar.
Tudo isto é utópico? Talvez. Como escolher quem orientasse este tipo de actividades? Quem faria a selecção? A sobrevalorização do valor do trabalho ou da “posse” como objecto de realização por um lado, e, a proliferação de gurus iluminados ou divulgadores de misticismo barato, por outro, contribuem para uma “má fama” que vai ser difícil de apagar. Terá de vir da sociedade, ou de parte dela, uma vontade forte para que o cenário mude e todas as questões que aqui coloquei possam ser equacionadas. Até lá, façamos cada um de nós o possível para que o balanço dos acidentes na estrada vá diminuindo.
Bom Ano!
Considero a meditação como uma excelente prática para o ser humano.
Eu, particularmente, sou contra as artes marciais, por considerá-las agressivas (já fui praticante quando adolescente).
Entretanto concordo plenamente em relação à causa primária da maioria dos acidentes: despreparo emocional.
As pessoas se transformam atrás de um volante. O carro permite um certo anonimato para o condutor.
Vamos dar o exemplo e exigir de nossos amigos uma postura correta: se eu não fizer, ninguém fará.
Felicidades e paz no trânsito a todos!