
No início da “Conclusão” do seu livro “Rei Gi”, o meu Mestre, Georges Stobbaerts, escreve o seguinte: O verdadeiro cerimonial conduz-nos ao silêncio interior, longe dos ritmos trepidantes da vida moderna, que nos afastam das riquezas interiores, e mesmo das exteriores, de uma vida natural, simples e feliz. Já não vivemos em harmonia. A maior parte de nós foge do silêncio e da meditação. A atitude correcta no silêncio é, contudo, fonte inesgotável de forças físicas, nervosas e espirituais. A invasão do ruído a todos os níveis da existência é um dos males da nossa época (…). Lembrei-me desta passagem do livro, apenas uma introdução para uma conclusão muito mais profunda acerca da visão do autor sobre o rei gi nas artes-marciais, depois de ter ido ver o filme “O Grande Silêncio” de Philip Gröning.
“O Grande Silêncio” é um filme documental de 160 minutos, que tenta retratar a vida da comunidade de monges da Grande Chartreuse em Isère, França, com quem o realizador viveu durante seis meses. Ora, sendo os monjes Cartuxos uma ordem contemplativa cujos “grandes instrumentos de trabalho” são a clausura e a solidão, não será difícil de compreender o porquê do título. E é isto que Gröning filma essencialmente: o silêncio. O silêncio próprio de uma vida de meditação, não só em momentos como os de oração ou de canto litúrgico (facilmente identificáveis enquanto tal), mas também no momento de rachar lenha ou cortar aipo para a refeição.
Assim, este filme torna-se ele próprio numa grande experiência, e por isso me lembrei da passagem do “Rei Gi” acima transcrita: durante quase três horas, somos colocados perante uma noção de tempo que não é, hoje, a nossa. Não só graças ao privilégio de poder “entrar” num mundo que nos é habitualmente vedado, mas porque somos literalmente colocados numa situação de quase absoluto silêncio, apenas cortado pelos sons de passos, portas ou chuva, prolongando muito para além do que nos é usual uma situação de quase imobilidade (estamos numa cadeira de cinema) e de privação de uma quantidade de estímulos nos quais nos viciámos. O único verdadeiro prazer sensorial que nos é permitido, é mesmo a enorme beleza das imagens, pois até a música é, condição imposta pela comunidade de monjes, inexistente neste filme. Há no entanto algumas surpresas em “O Grande Silêncio”, como a de descobrirmos o enorme humor destes monjes, homens dedicados a uma vida interior profundíssima, que quando reunidos para o passeio semanal em conjunto, conversam ou mesmo brincam com uma alegria que (talvez por ignorância) não esperávamos.
Vale portanto a pena, a meu ver, ir assistir ao filme. Pelo filme em si, enquanto obra, e pela experiência que o mesmo representa. Diz o realizador Philip Gröning acerca da suas intenções ao fazer “O Grande silêncio” (peço desculpa por ir em francês, mas não sou tradutor competente): (…) Un film qui reflèterait les origines archaïques, le fondement même de notre culture. Et surtout la conformité entre le contenu et la forme. Ici, cela semblait possible. Possible de créer le monastère lui-même pour 160 minutes à l’intérieur du spectateur. Faire un film qui serait une expérience. Un objet dans le temps. Parece-me que o conseguiu!
Só uma nota final, para referir dois links: um para o site do filme e outro para a página da ordem dos Cartuxos, ambos muito interessantes para quem quiser saber mais acerca deste assunto. E também para descobrir que, afinal bem perto de nós, existe quem veja o mundo com outros olhos e a outra velocidade.