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A Cultura da Desistência

Dezembro 21, 2010

“Os mercados” estão nervosos (como não haviam de estar…?) com os disparates económicos e financeiros do mundo sul-europeu e da Irlanda. “Os mercados”, até ao início do Séc. XXI, nunca tinham assistido a disparates financeiros praticados por estados livres e democráticos e é por isso muito natural que, agora, andem angustiados com a perspectiva de verem perdidas as suas aplicações na dívida de países mal geridos. Claro que “os mercados” já investiram muito, e já perderam muito, em aplicações sem base sólida ou até fraudulentas. Estas, terão até estado na base de uma das maiores crises de que há memória, mas eram aplicações mal criadas e fraudulentamente geridas por instituições particulares, o que é muito mais virtuoso do que ser mal gerido por qualquer estado. Não deve ser difícil constatar que o que é fruto da desregulação do mercado não assusta tanto “os mercados” quanto a má gestão de governos, apesar de tudo, de alguma forma regulados.

É por isso que às vezes, ao olhar para as notícias que chegam dos PIGS, uma natural angústia invade “os mercados” que não têm outra hipótese senão aumentar os juros da dívida numas décimas. Em geral ficam mais sossegados por dois ou três dias. Os governos terão portanto que saber escutar “os mercados” e agir conforme. Só assim voltaremos a ter paz na nossa economia.

Se o que acabei de escrever nos dois parágrafos anteriores faz sentido para si, então não precisa de se preocupar mais. Já percebeu o mundo e como ele funciona e só tem que decidir se vai passar o Natal mais ou menos angustiado.

Para mim, isto não serve. A história não faz qualquer sentido e por isso não a engulo como quem engole uma colher de óleo de fígado de bacalhau. Pior ainda, parece que há um “grande consenso” que a aceita tal como está. Desde o “não vale a pena andar a gritar com os mercados” até ao “o que é um facto é que eles é que têm o dinheiro de que precisamos”, nunca, desde que me lembro, uma cultura de desistência esteve tão entranhada em tudo o que é sector da sociedade. Na comunicação social que fala “dos mercados” da forma mais acrítica, sem se preocupar em explicar o que são os tais “mercados”, até aos especialistas e analistas que todos os dias nos repetem uma narrativa estafada que não explica nada a fundo e tem muito pouco de real, até comentadores políticos que, noutras matérias corajosos, aceitam nesta a inevitabilidade do destino, como se “os mercados” fossem um fenómeno atmosférico com o qual temos de viver da mesma forma que nas Caraíbas se convive com o El Niño. Os mesmos intervenientes políticos que, e a meu ver bem, acharam que a constituição europeia não devia ser imposta aos povos, que acharam que países pequenos como a Irlanda ou Portugal tinham a possibilidade e o direito de “colocar um pau” numa “engrenagem” que se movimentava independentemente da vontade desses mesmos povos, acham agora que não há travão que nos valha. Não vale a pena gritar.

E no entanto, como tudo isto é falso só não salta aos olhos de quem se recusar a ver. É do consenso geral que Portugal já não age autonomamente em matérias económicas. Têm sido tomadas medidas sobre medidas, fruto mais de vontades como a da U.E. ou do F.M.I. do que do nosso governo, tidas como exigidas pelos tão enervados “mercados”. Como se fossem Xanax, aumentos de impostos, cortes sobre cortes, alterações a leis laborais que nem os patrões exigem, são dados a tomar ao paciente na esperança de lhe acalmar os espasmos. E de cada vez que o remédio é aplicado acontece, como hoje, nova reacção negativa dos mercados. Desta vez, soubemos que a Moody’s se prepara para baixar de novo o rating da dívida portuguesa motivada pelo crescimento económico anémico de Portugal e pela fraca procura interna. Tudo isto, ainda segundo a Moody’s, vai ser agravado pelo impacto do plano de austeridade, imposto também em nome dos “mercados” que se regem, entre outras coisas, por… notações dadas por agências como a Moody’s! Ou me escapa alguma coisa ou alguém anda a brincar com a vida de milhões de pessoas.

Como é que nos podemos contentar com uma narrativa falsa? Tomemos o caso dos especialistas no assunto: já ouvi alguém com muito crédito afirmar que “os mercados” não têm atenção, em relação a Portugal, a mais do que àqueles dados que emolduram o apresentador do canal Bloombreg, como já ouvi gente muito credível afirmar que tudo o que é publicado no nosso país, desde as notícias de jornal aos debates do Prós & Contras, é escutado com muita atenção pelos “mercados”. E o que é fantástico é que argumentos opostos servem para justificar a mesma ficção oficial. E, tirando algumas excepções por vezes mais movidas por maniqueísmos ideológicos do que por qualquer análise racional, o tratamento proposto para a doença será também o mesmo.

É importante que cada um pense pela própria cabeça. Não é fácil perceber aqui quem nos ataca e por que razões (podem ser os especuladores gananciosos ou os malvados americanos que querem destruir o Euro) mas se sou atacado, prefiro procurar o inimigo a olhar satisfeito para um moinho. Persistir em aceitar acefalamente a explicação mais simples é contribuir para que o erro continue.

A cultura da desistência é a cultura da morte da liberdade individual.

P.S. – Não contesto a necessidade de medidas drásticas no contexto da recuperação do problema orçamental português que é real e é uma crise nossa paralela à internacional. Acontece que a razão de uma medida não pode ser indiferente à medida em si. Uma boa medida por razões erradas é, afinal, uma má medida.

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