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A Cultura da Desistência II

Dezembro 28, 2010

O Professor Cavaco Silva deu ontem, à entrada ou à saída de um qualquer evento, mais um precioso contributo para o instalar definitivo daquilo a que chamei no post anterior a “cultura da desistência”. É, para além de uma declaração de impotência que a mim, como português, me envergonha, uma verdadeira lição acerca da profunda fantasia que é a ficção oficial. Numa altura em que há países cuja economia é acossada por “mercados” e agências de notação, sem um mínimo de solidariedade pública por parte dos supostos irmãos de comunidade cujas economias (ainda) não o são, o nosso actual e mais que provavel futuro presidente vem dizer-nos para estarmos mansos. Tudo muito digno.

Se, no que diz respeito à minha vergonha, não posso fazer mais do que decidir-me finalmente pelo voto em branco, já no que diz respeito ao delírio deste capítulo da narrativa oficial posso aqui deixar algumas notas. Vejamos então uma parte do discurso do Senhor Professor Cavaco Silva e, de seguida, algumas conclusões que dele se podem tirar e algumas dúvidas com que fico e que penso serem também legítimas:

“(…) Há pessoas em Portugal que parece não saberem que os nossos credores são as companhias de seguros, são os fundos de pensões, são os fundos soberanos, são os bancos internacionais, e são os cidadãos espalhados por esse Mundo fora. E se nós lhes dirigimos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal. O Governador do Banco de Portugal já chamou bem a atenção para isso e agora o Dr. Durão Barroso faz a mesma coisa (…)”

1 – As companhias de seguros, os fundos de pensões, os fundos soberanos, os bancos internacionais, e  os cidadãos espalhados por esse Mundo fora, são uma bando de gente vingativa. Se insultados, não hesitarão em nos castigar friamente com medidas que colocarão mais uns milhares de portugueses no desemprego. Confesso que não sou de grandes investimentos, mas não me parece que, caso tivesse de alguma forma dinheiro aplicado na dívida de países europeus, ligasse para o meu gestor de conta a pedir que vendesse tudo de cada vez que um qualquer responsável europeu viesse a público insultar Portugal. Terá o Professor Cavaco pedido represálias económicas sobre a Républica Checa quando o Presidente Vaclav Klaus resolveu fazer declarações pouco abonatórias sobre Portugal ao seu lado e à frente dos media?

2 – É ponto geralmente aceite que os “mercados” e os agentes económicos se pautam, em regra, por alguma frieza nas suas decisões. Penso que será verdade, embora o contrário seja uma consequência do discurso de Cavaco Silva (vide o ponto anterior). Se não fosse verdade, o mundo dos negócios perderia toda a previsibilidade o que, não é preciso saber muito de economia, seria uma tragédia. Por exemplo, é frequentemente em nome dessa previsibilidade que se pedem, e bem, melhorias no sistema de justiça. Imaginar que os agentes económicos andam por aí a perder tempo com vinganças e paixões, parece-me um exercício pouco realista.

3 – Se quando diz que “há pessoas em Portugal que parece não saberem que os nossos credores são as companhias de seguros” etc., etc., o Professor Cavaco Silva se refere ao povo menos informado, tem razão sim senhor. “Parece não saberem” e isso é muito natural num país em que os responsáveis políticos perante a adversidade ou desistem ou insistem em medidas de curto prazo destinadas a não servir por muito tempo ou tempo nenhum. Se “de cima” vem a resignação, “cá em baixo” responde-se com alheamento.

4 - Se quando diz que “há pessoas em Portugal que parece não saberem que os nossos credores são as companhias de seguros” etc., etc., o Professor Cavaco Silva se refere à classe política, está visto o que pensa acerca da dita. Espero que não tenha razão.

5 – O que se pergunta no fim disto tudo é porque é que os responsáveis dos países “em risco”, os famosos P.I.G.S. (não é insulto, é um carinho) não tratam de, em vez de se preocupar com as hipotéticas ofensas a “mercados flor-de-estufa”, na União que era suposto ser a força tentar impulsionar medidas que imponham alguma racionalidade a tudo isto. É que se o fazem e não se sabe (duvido mas enfim…) devia saber-se. Pelo menos dava a sensação que alguém lutava por alguma coisa e uma aparência de dignidade sempre daria algum alento.

Os juros da nossa dívida voltaram a subir, ao que parece, consequência das más notas da Fitch. A Fitch fez bem: assim os nossos juros sobem, a nossa economia arrefece, a situação do país agrava-se e, por isso, a Fitch voltará a baixar a notação de Portugal. A inteligência oficial vai acabar por dizer que é necessário vir cá o F.M.I. para colocar a casa em ordem e as nossas notações voltarão a baixar porque a economia ficou descaracterizada ou o sistema bancário deixa de ser atractivo q.b. entre outras fortíssimas razões. Mais ou menos como aconteceu na Irlanda a quem a Moody’s não hesitou em baixar o rating depois da entrada do dito F.M.I.. Como brincadeira é divertido; na realidade é um desastre cujo fim não se antecipa.

(espero não ter insultado os mercados…)

Para ouvir as declarações do Prof. Cavaco Silva:

http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/noticias-pais/2010/12/cavaco-diz-que-ha-politicos-em-portugal-que-ainda-nao-perceberam-quem-sao-os-nossos-credores28-12-20.htm

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