Vi há pouco tempo um pequeno filme, do qual copiei o título para esta nota, que me provocou algumas reflexões. Começa com uma frase: “Quanto mais cientificamente letrada, intelectualmente honesta e objectivamente céptica uma pessoa for, mais provável é que não acredite em nada de sobrenatural, incluindo Deus.” Depois de ler tão veemente afirmação, claro que tinha que ver o dito filme.
A questão da religião versus ciência é uma questão que me fascina até pelo tempo que se perde com ela. Quase sempre, arguentes de um lado e de outro se lançam em discussões interessantíssimas, movidas por uma oposição entre fenómenos de categorias absolutamente diferentes e, por isso, inoponíveis. De onde vem então esta constante oposição entre ciência e religião? A meu ver de duas fontes fundamentais: Por um lado, do medo de que a descoberta da verdade científica venha abalar um qualquer sistema de crenças. É um medo antigo que, diga-se a verdade, já não tem grande expressão no nosso mundo globalizado. A segunda fonte parece-me ser a ideia de que uma qualquer religião, ou Deus, terá como finalidade última uma “explicação das coisas” e do mundo. Este segundo factor é ainda muito presente e é transversal a todo o filme.
O que mais me espantou neste “50 académicos e cientistas famosos falam sobre Deus”, é a própria concepção de Deus ou de religião de que a grande maioria parte ou mostra partir, ou seja, de uma concepção literal de Deus como uma “pessoa” (um dos depoimentos do filme assim o refere) que terá criado o mundo, o protege e vela por ele. Não sendo eu próprio religioso, atrevo-me a dizer que, tirando em alguns contextos culturalmente menos informados, já muito poucos cristãos, judeus ou até muçulmanos, partilharão desta forma de pensar Deus. Não deixa por isso de ser curioso que gente habituada à análise rigorosa e metódica dos factos, quando analisa os fenómenos religiosos parta de uma concepção mais próxima da crença popular do que de uma pertença informada a um qualquer sistema religioso. Um pouco como se se argumentasse com alguém com base num argumento que a outra pessoa não usou. No mínimo, será pouco científico e é, no entanto, um erro constante ao longo deste mini-documentário.
Não deixam, no entanto, de estar expressos no filme alguns dilemas interessantes como a conciliação de uma noção de Amor Divino com a existência do sofrimento, tenha ele origem em catástrofes naturais ou, mais difícil ainda, na própria Criação. Claro que, por vezes, também aqui as noções de “Amor” e “amor” são confundidas, mas este é de facto um tema que sempre suscitará discussão. Mais grave é a quantidade de argumentos produzidos que só são entendíveis à luz de uma grande ignorância. Vejamos apenas alguns, para além dos já referidos:
— Só devemos acreditar no que é racionalmente explicável — estará certo se partirmos do princípio da infalibilidade da razão e se acreditarmos na impossibilidade de limites para a mesma. É um argumento, eu diria, religioso. Como tal, será incoerente quando proferido por um ateu.
— As pessoas religiosas acreditam num propósito para o mundo. Porque é que haveria de existir um propósito? — de facto não tem de haver um propósito, mas também não me parece que essa seja uma convicção transversal ao universo dos crentes. No entanto, mesmo que o seja, é tão lógico procurar um propósito para o universo como procurar o seu princípio e a comunidade científica não se cansa de o fazer.
— A religião é a grande fonte de males do mundo. Disso são exemplo as guerras ou o radicalismo — este é um argumento tão difundido quanto infundado e, se alguns dos depoentes o analisassem com a objectividade com que olham para células ou átomos, veriam o disparate que dizem. Não só as religiões têm tanta culpa no cartório como qualquer outro fenómeno humano incluindo a ciência (a eugenia não foi um fenómeno religioso) como esquecem o lado oposto: o de que há no mundo milhares de seres que só comem ou são vacinados porque uma freira ou um monge budista se interessam por eles.
— Acreditar num Deus é tão irracional como acreditar em fadas — este argumento, que mistura religião com o “maravilhoso popular”, fala por si.
— Deixei para o fim o argumento que me parece o mais extraordinário de todos e que é proferido por um dos cientistas entrevistados: “Os teólogos (sic) inventaram esta coisa sem qualquer contacto com a realidade”. É difícil juntar numa frase tanta confusão de conceitos. Custa a crer que alguém informado possa dizer tal coisa sem ser por engano.
Estes são apenas alguns dos argumentos que podemos ouvir no filme. Há mais argumentos e até mais filmes nesta série. Um outro com mais 50 sumidades do mundo académico e da ciência, outro com 20 académicos cristãos e um outro com 30 escritores de renome. Não os vi ainda mas suspeito que pelo menos um deles não saia desta linha.
Citei no primeiro parágrafo uma frase retirada do início do documentário. Acabo este texto com outra frase, também ela daí retirada: “Muitos dos intervenientes são académicos de elite, professores em instituições de topo, muitos deles prémios Nobel”. Fica pelo menos provado que saber muito de determinado assunto não implica ter coisas interessantes para dizer sobre o que quer que seja.
